sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Idiossincrasia



Passava na frente daquela casa todo dia e sempre quis saber o que havia La dentro. Naquela manhã após desligar-se das coisas que já não faziam sentido para ele, resolveu entrar. Não havia nada de diferente no céu. Tudo normal como em um amanhecer de verão. A única coisa diferente naquele dia era a porta da casa aberta. Ele é curioso e por isso resolveu entrar. Também é inocente e não sabe que às vezes é necessário deixar as portas abertas para deixar o ar fluir. Mesmo quando o vazio é a única coisa que se diz existir naquele lugar.
Ao entrar naquela casa, que por fora lhe chamava a atenção por ser linda e bem detalhada. Sentiu-se como um peixe fisgado pelo anzol ou um pássaro a caminho da arapuca. Mesmo assim continuou sua exploração. Sua razão sabia que não era para ele estar ali, mas depois de passar pela porta principal viu uma escadaria improvável. Acessava os quartos enquanto passeava pelas memórias registradas nas gravuras fixadas pelas paredes. O tapete que cobria os degraus faziam se passar por teclas de um piano embalado pela música de Wagner. As janelas estavam cobertas por tecidos pouco translúcidos que deixavam a luminosidade interior apenas suficiente para não se tropeçar em seus pensamentos confusos. Entretanto, os móveis pareciam ter luz própria. Era fácil navegar por dentro daquele ambiente.
Ele é acostumado a confusões. Mas ao entrar naquela casa percebia o quão normal sua vida era. A casa, como disse, estava deserta. A casa era mesmo assim limpa e com o ar respirável. Mesmo assim não respirava. Pelo menos até o momento em que resolveu subir as escadas. O primeiro lance o levou por entre campos e cidades desconhecidas, mas que já ouvira falar. Cenários parecidos com os seus em tempos infantis. Lá reconheceu suas experiências e pensou que se daria bem naquela exploração. Seu pensamento era singelo e por isso imaginava muito além do que devia.
Quando chegou ao andar superior olhou para cima e viu que entrar ali não teria sido boa coisa. Viu a porta por onde entrara aberta. Ficou curioso como era possível. Explorou o quarto de adolescente que cheirava a morango que estava a sua frente. Entrou no closet arrumado e se perdeu lá dentro entre as calças que deviam ser apertadas e as blusinhas sem mangas. Percebeu então que não sairia de lá, estava em uma espécie de jardim onde as árvores cresciam sem poda e estavam se formando como uma floresta fechada. Resolveu sair depressa e tropeçou no abajur que estava perpendicular à cama. Tentou compreender o que acontecia. Desistiu e foi alcançar as escadas. Lá chegando teve que desviar do lustre de cristal que atravancava o caminho pelo teto. Estava pisando o teto, enrugado pelos degraus, como se estivesse no chão. Procurou encontrar uma forma de sair dali. Percebeu que os lances da escada se misturaram enquanto explorava o quarto adolescente. Viu que já estava à tarde e deveria passar pelo quarto adulto com cheiro de canela.
Em tons vermelhos Ferrari, o quarto estava com sua visibilidade interior comprometida pela fumaça de vários cigarros mal apagados pelos cantos como se fossem incenso. Sobre a mesa um livro de Baudelaire aberto chamava a atenção. Aproximou-se para ler alguns versos. “mon esprit humilié/Faire ton lit et ton domaine;/Infâme à Qui je suis lié/Comme le forçat à la chaîne”. Continuava tentando sair dali. Logo desistiria desse plano, acomodara-se. Agora o cheiro era mais sensual. O clima era mais doce e picante. Em seus lábios um gosto azedo se misturava com um toque úmido que não identificava muito bem. Sabia que era divertido. Seu corpo já não mais respondia a estímulos como antes. Agora era mais rápido e intenso. Estava mais guloso. Sabia o que fazer, mas ainda estava preso. Correu para a escada e subiu até cansar-se. Viu que nunca chegaria a uma saída. Já não era mais o mesmo que entrou naquela manhã. Não era mais curioso. Conhecia muito bem onde estava.
Aquelas memórias grudadas nas paredes foram trocadas. Desta vez todas eram bem conhecidas. Muitas eram manipuladas. Ao final do dia ele encontrou uma velha cadeira de balanço. Aquela tranqüilidade passou a ser seu objetivo final. Arrastou-a até uma janela de vidros sujos que dava para a rua. Estava no 3º andar da casa e de lá podia ver no céu as primeiras estrelas da noite. Sabia que havia entrado em um labirinto digno ao de Dédalo. Não sairia de lá vivo. Mas teve uma boa vida ali. Desfrutou de muitas coisas e compartilhou experiências.
A vida lhe era agora algo passado e bem vivido a sua maneira. Voltaria à luz do que reconhecia ser o seu primeiro berço.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Luto



Poucos podem imaginar como foi difícil postar o texto anterior. Poucos realmente podem pensar como foi difícil escrever alguma coisa neste momento infernal. Sinto me atado a escrever algo que não posso, pois não existem termos que possam resumir o valor de uma pessoa. No entanto, sinto que não posso deixar de escrever algo. Hoje/ontem percebi mais uma vez (isso já está ficando repetitivo demais) que a vida é tão passageira. Que de repente nossos amigos se vão e nem nos damos conta. Que quando nos afastamos por causa de nossa “nova rotina” estamos perdendo um tempo valioso que pode nunca mais ser recuperado. Escrevo isso com o coração dilacerado. Não posso dizer que expressão alguma que eu escrever vai demonstrar o que sinto. Também não posso dizer que palavra alguma terá o mérito de contemplar a vida de um amigo que se vai. Não sou arrogante para isso. Mas devo confessar que o medo que sinto é forte e me faz lembrar aquelas palavras tão nobres e repetidas de Vinícius de Moraes que chegam a doer o peito e ferir a alma.
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

Carine



Ele, um garoto bobo, amigo de um outro bobo, eu, encontrou uma garota legal. Juntos fizeram planos e se casaram. O garoto bobo cresceu, não muito, ficou bobo e fofo. E nessa vida em que as pessoas se perdem em sonhos idiotas, buscando realizações materiais hipócritas ele teve em sua garota legal um norte para não se perder. Ela tinha seu jeito de garota boba, mas decidida como ele também traçou planos e metas. Estavam realizando. Já tinham um bobinho a caminho. Mas algo que não estava em seus planos aconteceu. Agora o garoto bobo está sem sua garota boba e seu bobinho. Ela, especial, foi por outra porta. Pois os planos dEle para ela não eram neste plano. Mas ele não deve ficar só. Estamos aqui para lhe dar todo o conforto de nossos abraços. E assim ele dará novamente seus passos em busca de seu eterno caminho.
Descanse em paz amiga, nós cuidaremos das coisas por aqui.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

signo versus ascendente



- Olá.
- Tudo bem.
- Como está a vida?
- Do mesmo jeito, sempre.
- Ainda está se cuidando como antes?
- Um pouco menos, o tempo está acabando.
- Como assim o tempo está acabando? Você ainda está aqui.
- Por isso mesmo, errei nos primeiros cálculos, não sou muito bom em contas.
- Mas era para você perceber que as coisas não aconteceriam daquele jeito. Era para aceitar.
- Não tenho nada para aceitar. E se tivesse não me importaria. Estou apenas esperando.
- É claro que você deve aceitar, deve se cuidar direito. Não é como uma condução que vem.
- Por que não? Desde que chegamos aqui sabemos que ela vem. E a minha não deve demorar.
- Você faz de tudo para ela vir logo né? Não se cuida, não se liga a nada permanentemente. Por isso que ela se foi. Deveria esquecê-la e procurar outra.
- Pura perda de tempo. Assim como esta conversa. Quem é você para me dizer algo. Nem experimenta isto de verdade.
- Através de você. Você precisa de mim. Por isso existo.
- Não vou prolongar este assunto. Tenho que queimar algumas coisas.
- Que coisas? Aquelas lembranças?
- Também, mas vou queimar um pouco de mim, quem sabe assim os outros que ligam deixem de ligar.
- Nossa! Você pensando nos outros.
- Não posso deixar de pensar neles. Me acompanham.
- Você é um covarde.
- Só não quero que tenham trabalho depois, culpando-se.
- Mas eles realmente não têm culpa de nada. Deixe de besteira.
- Não importa. Para mim todos são culpados. Não vou perder meu tempo com eles. Em breve o que espero chegará e deixarei estas baboseiras de lado.
- Você poderia cuidar-se enquanto está por aqui. Eu estou bem, mas é você quem sente as dores. Não eles.
- Mas já está para acabar.
- Você disse isso aos 16 anos, depois aos 19, aos 21, novamente aos 23, quando você quase (...) e agora.
- Quem sabe desta vez eu esteja certo?
- O que você pode fazer para provar?
- Sei que de fato ela deve vir. Posso chamá-la.
- Então por que não faz logo?
- Você ainda está aqui.
- Por pouco tempo. Estou indo com ela.

Não adianta! será?



Não adianta! De fato é impossível. Tento retornar à normalidade, mas não posso. Já fiz tudo que costumo fazer nessas situações, no entanto, nada parece dar certo. Hoje mesmo, fui longe.., tão longe quanto minhas pernas podiam me levar, mas ainda assim não adiantou. Nem aquelas paisagens maravilhosas, nem as dores causadas pela fadiga muscular foram suficientes para poder relaxar a mente. E quem sabe deixar de pensar em você.
Minhas forças físicas esvaíram-se e minha mente está ainda mais enfraquecida. Que tipo de vida é essa? Devia dormir, sinto muito sono afinal, mas sem você ao meu lado a cama fica muito grande. Um deserto gelado. Não sou muito bom em platonismo. Não sei como agir. Estou aprendendo, talvez estarei assim por algum tempo. O melhor que devo fazer é esperar este tempo passar logo. Tudo voltará ao normal. E quem sabe possamos ficar juntos novamente.

"Alto do delírio"




Ultimamente não tenho publicado por falta de inspiração. E para resolver este problema resolvi usar uma técnica muito comum nestes casos: falar de experiências. O problema era escolher sobre que experiência deveria falar. Resolvi então aproveitar o fato de nunca ter escrito sobre uma coisa muito importante para mim e que estava nos meus planos quando decidi criar um blog. Vou relatar um treino de mountain bike que fiz hoje. Treino singular e duro.
Para quem ainda não sabe, eu sou atleta. Sou ciclista e pratico duas modalidades na bicicleta. Faço ciclismo de estrada (speed, bicicleta de asfalto com pneu fino e guidão curvo) e mountain bike (trilha, bicicleta de pneus mais grossos e com amortecedor). Participo de algumas competições e mesmo não sendo tão bom faço parte de uma equipe de uma cidade próxima à minha. Corro em algumas corridas pela região e outras que tenho a sorte de ser convidado. E justamente por causa de uma corrida que terei em breve, hoje fiz um treino especial.
Junto a um colega fui treinar em um lugar muito lindo. Na verdade, hoje vi uma das paisagens mais espetaculares que já tive a oportunidade de contemplar. Geralmente em treinos de subida em mountain bike passamos por lugares maravilhosos, mas não temos cabeça nem tempo para ficarmos olhando. A não ser quando temos algum problema mecânico necessitamos fazer reparos. Na verdade a paisagem que vi hoje foi muito mais do que um belo cenário para cartão postal. Foi um plano de fundo para uma nova visão do mundo. Estava precisando disto. Talvez estava precisando mais daquela paz verde que vivenciei no alto de uma das subidas mais fortes da região do que do treino físico em si.
Ultimamente minha mente anda me pegando peças. Tenho sentido algumas coisas que não são muito comuns. Uns pensamentos estranhos. Umas saudades estranhas. Um vazio sem sentido. E entre uma crise e outra deixo de observar muito o mundo ao meu redor, estou deixando fatos relevantes passarem e acabo me perdendo. Neste momento recolho-me a uma das minhas companheiras mais fiéis, que com a ajuda de minhas pernas me levam o quão longe geralmente preciso.
Mas em dias como este, depois de um treino tão legal, sinto como se minhas forças tivessem voltado. Apesar de ainda ter a mente confusa. Posso mergulhar naquele mar verde no “alto do delírio”(nome da subida, muito apropriado por sinal) rodeado por morros cobertos por uma manta ainda mais verde e escura e deixar-me levar pelo vento e o som dos pássaros que cantavam livremente suas melodias inspiradoras do cerrado.
Desta vez não tirei fotos, mas prometo que em breve voltarei lá e trarei fotos para postar aqui.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Carta



Olá, estou te escrevendo esta carta para te lembrar que hoje é meu aniversário. Sei que já faz muito tempo que não nos vemos, mas acredito que ainda se lembre de mim. Sei que suas ocupações não te permitem visitar velhos conhecidos quando bem entende. Também se vier gostaria que me avisasse com antecedência. Posso estar ocupado com alguma coisa e não sei se te receberei como merece. Ultimamente tenho me lembrado daqueles dias, foram bons os momentos que passamos juntos. Poderíamos revivê-los, pelo menos parte, já que estamos muito atarefados, levando nossas carreiras. Ouvi dizer que recentemente você recebeu uma bela promoção. Vejo que seus esforços daquela época estão sendo recompensados. Sempre soube que teria sucesso. Sempre soube. Disse-te naquela oportunidade que lamentava pelo mau resultado daquela prova, mas hoje acredito que foi bom assim. Você superou todos os desafios e amadureceu bem. Sinto-me orgulhoso por ter feito parte de algum momento em sua vida. Sei que mesmo nestes dias de pressão você ainda se lembra dos momentos em que nos perdíamos em que ensinava ou aprendia. Concordo que errei algumas vezes e que em outras você me tirou do sério com algumas atitudes ingênuas (risos). Nada mais está como antes. Lembra da (...)? pergunta tola. É claro que sim, vocês ainda estão se vendo sempre. Assim que se verem novamente diga que sinto saudades. Na verdade seria interessante se vocês se reunissem e viessem em grupo. Mas como eu disse antes avise-me. É engraçado como a idade me alcançou depressa, não posso mais correr de bike atrás de vocês. Mal saio de casa. Exceto para resolver coisas sérias. Por isso gostaria de rever pessoas que são tão importantes na minha vida. Ah, se você tiver tempo, entre um paciente e outro, escute esta música “There is a light that never goes out” da banda “The Smiths” é antiga, mas gosto muito do refrão.
Atenciosamente, Eu.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sonho você



Quando comecei a estudar não tinha a menor idéia dos caminhos e das experiências a que estes estudos poderiam me levar. Como toda criança sonhava em ser piloto, astronauta, policial, agente do FBI e CIA ao mesmo tempo, talvez um James Bond ou um tipo de Batman. Na verdade tive vários sonhos. E ainda os tenho como sonhos. Sei que não se realizarão, no entanto não deixo de nutrí-los todos os dias. Eles são importantes para que eu possa seguir em frente e não pirar. Sonho enquanto trabalho, sonho enquanto pedalo e principalmente sonho enquanto estou com você. Que pode nem saber disso, mas sonho.
Volto a minha realidade. Acordo frustrado, mas quando você está ao meu lado volto mais tranqüilo. Sei nesses momentos que uma parte dos meus desejos esta materializada ao meu lado. Fico feliz. E como se fosse um jogo comigo mesmo escondo esse sentimento ao máximo. Em alguns breves instantes brinco de realizar meus sonhos em segredo, correndo o risco de me revelar. E quando tudo parece perfeito nesse meu universo particular, você me toca. O leve toque de sua pele sobre a minha me faz delirar, naqueles breves instantes minha alma voa, perco o chão, a fala, o sentido de direção e me deixo guiar pela sua voz, pelo seu aroma, pelo seu toque sutil e me embriago em delírios secretos.
Quando nos despedimos, sempre penso que é como num jogo pueril de esconde-esconde. Que quando nos acharmos iremos à loucura de nos (...). Agora vejo que por mais que sonhasse nunca me imaginaria nessa condição. Nada aconteceu de fato como eu queria, mas aceito tudo muito bem, você é um sonho. Ainda reclamo, afinal não sou hipócrita o suficiente para fingir que essa situação em minha vida é a melhor coisa do mundo. Não sei lidar muito bem com meus sentimentos, afinal “sofro desde a epigênese da infância a influência má dos signos do zodíaco”. Sei que há uma boa razão para tudo isso. E se essa razão foi apenas te conhecer já foi muito, desta forma me sinto muito mais disposto a enfrentar o que vier.

Cinema, pipocas, amigos, realidade?



Adoro cinema. A mágica de levar a verdade /  mentira 24 quadros por segundo ao alcance dos olhos. Permitir à mente se entregar completamente à situação da dúvida sobre a realidade dos fatos a tal ponto de penetrar na história defendendo idéias ou circunstâncias fictícias mesmo que por pouco tempo. Melhor ainda quando nos submetemos a este tipo de experiência acompanhados de pessoas que fazem algum sentido em nossas vidas. Adoro a sensação de esquecer tudo o que está lá fora, ou de dissimular que toda aquela representação é uma mensagem apenas para nós. Interpretar as personagens como nossos conhecidos e fazer assimilações exclusivas ao nosso grupo. Sofrer com traumas passados após ver cenas semelhantes às vividas. E principalmente acompanhar tudo isso com muita pipoca e coca-cola.
Sair em plena segunda-feira para ter o prazer de nossa companhia por algumas horas foi fantástico. Receber uma boa notícia entre um filme e outro também foi sensacional, mesmo que esta tenha vindo acompanhada de uma grande decepção que aliviou a alegria sentida naquela noite. São coisas da vida, surpresas que a tornam cada vez mais viciante. Por alguns instantes senti falta de pessoas importantes conosco, mas logo percebi que elas não saiam de nosso meio. Sempre pensávamos nelas. Fato interessante sobre a amizade.
No fim, toda a magia do cinema – dois filmes assistidos – nos embalou as conversas, nos aproximaram mais e nos trouxeram uma boa dose de fantasia. Nem sei se as histórias contadas foram o mais importante, sei apenas que foram um ótimo plano de fundo para um encontro a três que vai deixar saudades. Quem sabe se no futuro esse número se multiplique. Ficarei feliz se a pessoa que não esteve conosco nos acompanhar da próxima vez, assim ela saberá o quanto é amada e o quanto sofremos por seu drama.


Quanto à imaginação e fantasia do cinema sugiro este link para leitura.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A deriva



Acho incrível como as coisas têm a capacidade de mudar tão rapidamente. É realmente surpreendente como em apenas 24 horas tudo de mais sólido que havíamos planejado pode se tornar pó. Acontece que tenho lá minhas dúvidas se isso é falta de experiência ou se é porque dou muita importância a meus sonhos. Acredito que não tenho muita sorte também, mas apesar disso continuo me arriscando com meus planos.
Tenho que tomar cuidado todas as manhãs para que minha mente não saia dos trilhos, toda vez após acordar fico na cama fazendo força para discernir o que é realidade do que é ficção, imaginação ou desejo, caso contrário terei grandes problemas. Mas o que acontece é que tento apresentar a realidade como se fosse algo que aceito de fato, e não é. Tento provar para mim mesmo que minha vida está sobre trilhos, mas na verdade é um barco à deriva. Já estou cansado dessa maré infernal que me dá enjôos.
Estou recomeçando uma nova etapa na minha vida. Já estou cansado de tanto recomeçar do zero, desta vez vou carregar comigo algumas lembranças da última. No entanto, quando penso estar tudo decidido percebo que meus planos são realmente como ondas, efêmeros e descontrolados.
Tudo o que sei é que vou seguir meus instintos, se não der certo vou parar de me convencer todas as manhãs e me deixar ser levado pela loucura.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

[NÃO]Sejamos Moralistas



Por esses dias li um texto com o título de "Sejamos Moralistas" não me lembro aonde, caso o ache outra vez, coloco as devidas referências no fim da postagem. Enfim, o texto me chamou atenção justamente pelo título, tenho uma certa apatia por moralistas, e depois que o li, essa apatia evoluiu para quase um asco. O texto é de caráter irônico, mas descreve verdades indiscutíveis sobre os tais moralistas. Realmente nunca entendi que vontade louca é essa de querer julgar a vida alheia em nome da moral e dos bons costumes, concordo que vivemos um caos, mas não vão ser críticas preconceituosas que vão sanar os problemas da sociedade. Digo preconceituosas pois o tal moralista não faz nada além de ter pré-conceitos sobre tudo e todos, para mim são todos egocêntricos, exaltando o seu eu como modelo a ser seguido. Por que são tão certos da sua verdade? Por que acreditam tanto que a sua tão amada moral é a verdade absoluta e inexorável a ser seguida? Estava reparando que são muitas vertentes de moralistas, mas como isso é possível se a moral é apenas uma? Existem moralistas que criticam homossexuais, e existem moralistas que criticam aqueles que criticam homossexuais, você entendeu? Nem eu. Moralistas religiosos, cada um defende seu caminho, seu deus, sua crença. E onde está a verdade, moral, bons costumes, harmonia, paz e tudo de bom que o termo Moralista anuncia? Não sei como pode haver harmonia com tantas pessoas caminhando em direções diferentes, defendendo o certo e o errado usando da mesma desculpa. Usam o pretexto de serem adeptos à moral para julgar o modo de vestir, andar, falar, os costumes, os medos, e tudo o que não se encaixa em seu falso moralismo. Existe uma maioria hipócrita no universo moralista, que talvez, nem seriam hipócritas se não tentassem ser algo que não conseguem, só para se auto denominarem mensageiros dos bons costumes. Se alguém deseja disseminar uma ideia aparentemente boa, que traga bons resultados não somente para si, mas para outros seres, que faça-o de forma justa, sem julgar, apontar, delatar, com certeza a ideia será mais facilmente aceita. Não sejamos moralistas, não sejamos hipócritas, não sejamos ditadores de uma moral duvidosa, não sejamos injustos.

link para o texto: "Sejamos Moralistas" de Mirlene Souza

Loucura mano!

Bem o vídeo abaixo dispensa qualquer comentário. Apesar de não ser a modalidade que pratico, o que esse cara faz com sua bike me deixa impressionado! É um show de técnica e controle. Já havia postado esse vídeo no meu perfil do orkut, mas agora vou deixá-lo aqui também. espero que agrade.
nota: não tentem fazer isso em casa, na rua, nas calçadas ou dentro da escola. E não, eu nem de longe faria isso rsrsr

Esclarecimento

Por favor meus amigos, não sou contra religião alguma ou satanista. Nem tenho nada contra eles. Apenas sou a favor do esclarecimento religioso e da literatura sem censura. É que existem pessoas hipócritas por aí que pensam que o homem nasceu com um chip programado apenas para um caminho religioso... Eu sei, a bíblia diz isso, mas acredito na livre escolha. Ou será que somos inferiores aos nossos celulares? Eles já são desbloqueados né?

O "evangelismo"


- Mãe, me dá um livro.
- Pra quê? Você nem gosta de ler.
- Quero passar a gostar, dizem que ler faz bem para a cabeça.
- Sabe o que faz bem a cabeça? Deus no coração. Não idéias desse povo que às vezes nem acredita em Jesus e fica colocando coisas estranhas para você ficar pensando.
- Mas mãe...
- Que foi?
- a Senhora não conheceu Deus e Jesus e toda aquela galera através de um livro? A bíblia?
- Humm...
- Qual é o problema de eu ler um livro?
- Porque você pode encontrar outros deuses lá e isso não é bom. Devemos cultuar apenas ao nosso Deus todo poderoso, o criador. Amém.
- Mãe..
- Fala.
- Se ele é o criador de tudo, ele foi criado por quem?
- Você anda lendo o quê por aí? É a internet? Pois a partir de agora o senhor está proibido de usá-la.
- O que faço para ocupar meu tempo então?
- Vou te dar um livro para ler. Criança de 12 anos não deve ficar com a mente tão poluída.
- Legal, ouvi falar de um tal de José Saramago, ele é bom, recebeu prêmios e...
- Não, você lerá a bíblia ou algum livro que fale de Deus.
- o Saramago tem um livro chamado O Evangelho segundo Jesus Cristo.
- É, esse deve ser bom, vai ler esse primeiro. E espero que aprenda algo sobre como é errado questionar a vontade divina.
- Sim mãe, espero que a leitura me salve. (risos escondidos)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ventania

Hoje me sinto mais livre que em qualquer dia de toda minha existência. Ando pelas ruas de todas as cidades e todos me cortejam quando lhes dou esse direito. Na maioria das vezes estou invisível, prefiro assim. Gosto de ser voyeur, pois posso admirar solitariamente todas as coisas bizarras que a humanidade costuma fazer, como andar em fila e buscando sua individualidade sendo cada vez mais comum. E se a solidão estiver me entediando logo dou um jeito nisso, chamo qualquer pessoa para ficar ao meu lado, neste meu universo particular.
Não tenho privações. Sou livre de verdade. As correntes morais não fazem pressão sobre mim. Canto como quero, falo como quero e na língua que desejo. Se este planeta me incomoda vou para outro. Saboreio as mais estranhas variedades de comida, todas com alto grau de pureza. Tenho uns problemas para resolver, pois problemas são necessários para se levar a vida. Mas essa vida eu levo ao meu jeito. Sem hora para dormir ou para acordar, sem gravidade para me puxar e sem rumo certo. Por horas posso ficar rodando e vejo as coisas passando como se fossem na janela de um carro de corrida. Imagino-me um pássaro, sobrevôo as nuvens.
Quando estou cansado deito-me no chão e olho para o céu, logo estarei em um deserto, em um oásis e mil virgens estarão ao meu lado fazendo companhia. Serei carregado para meu palácio de cristal onde meus servos, todos feitos de algodão me trarão tudo que preciso. Dormirei e assim sonharei com uma realidade diferente. Lá pessoas me farão perguntas, serei o centro de suas vidas, mas nesse sonho sentirei algumas dores e logo será um pesadelo. Acordarei toda vez que isso acontecer e novamente estarei no meu castelo.
Agora estarei em um campo verde e as formigas estarão comigo. Jogarei batalha naval com os peixes em um lago pequeno que logo transformarei em oceano. Pessoas de todos os tempos virão me visitar, desde políticos importantes a antigos reis poderosos. Prefiro os reis. Eles têm histórias muito mais interessantes para contar. Simulo com eles batalhas épicas e eles sempre voltam para me visitar.
Existe um mundo em miniatura embaixo de nossos pés, em cada molécula, cada átomo é um universo diferente. É ignorância humana pensar que está só neste cosmos. Eu, que estou livre, posso viajar para qualquer lugar, costumo voar nas costas de uma borboleta todas as manhãs e deitar-me com as fadas após suas festas maravilhosas.
Aqui não tenho privações, exceto quando o pesadelo volta e as perguntas e aqueles mosquitos gigantes que jogam veneno em meu sangue vem me irritar. Peço socorro, mas eles estão todos loucos, dizem que me ajudam, mas só me tiram do paraíso.

Confissão

Fui informado que o meu último post era um plágio ( Chat avec le psiquê ). Plagiei inconscientemente o filme 'Ilha do Medo' do Scorcese. Sinto muito por isso já que nesse mundo tudo se cria do nada e eu cometi essa falha de não lembrar que essa história que vinha em minha cabeça se embasava exatamente em outra que havia assistido a algum tempo. É claro que meus milhões de leitores pelo mundo (sic) iriam ficar revoltados então escrevo essa confissão. Peço para que me julguem da forma mais cruel o possível, pois nunca, jamais alguém cometeu algo tão cruel.

Chat avec le psique


- Bom dia Leandro.
- Bom dia doutor
- Leandro, você se lembra o porquê de estar aqui hoje?
- Seria por algo que comi?
- Pare com isso, você lembra onde está a sua família?
- Pelo que me lembro foram tirar férias, mas não sei ao certo onde...
- Quando foi a ultima vez que os viu?
- Ontem mesmo, minha mãe estava cuidando do cabelo de minha irmã.
- Lembra de mais alguma coisa?
- Só que eles não estavam muito satisfeitos, mas por que você está me perguntando essas coisas?
- Por que você não está colaborando comigo.
- Então quer que eu colabore como?
- Apenas me diga o que tem feito nesses últimos dias.
- Tenho feito coisas normais, ido dar minhas aulas, tenho pedalado pouco nos últimos dias, mas tenho jogado muito xadrez com um amigo.
- Quem é esse seu amigo?
- O Carlos, ele é um cara legal... Tem uma loja legal...
- Leandro, tenho que ser sincero com você, você deve saber o motivo que o traz aqui hoje e todos esses dias.
- Qual é então?
- Sua família morreu há cinco anos, ninguém sabe o que aconteceu, te encontraram junto a seus corpos mutilados, aparentemente você estava em choque. Tudo o que queremos é saber o que aconteceu. Aqui é um hospital psiquiátrico, você não tem contato com ninguém exceto comigo há 2 anos, desde quando passou a ser violento.
- Sério mesmo?
- Sim, você tem imaginado tudo... Criado uma outra realidade com personagens e tudo mais. Ninguém conhece a sua família, ninguém realmente sabe de onde veio, porque estão todos mortos, você não tem amigos. Sua mente está doente.
- Se minha família morreu, por que falo com eles todos os dias? Se não tenho amigos com quem jogo xadrez sempre? Se estou preso em um hospício por que saio pelas trilha a pedalar de vez em quando?
- Tudo isso é fruto da sua imaginação limitada à ilusão.
- Se isso tudo é fruto da minha mente “doente”, você também pode ser, assim como todas as outras personagens. Posso simplesmente acordar e voltar à outra realidade.
- Leandro você não está evoluindo no nosso tratamento.
- Não evoluo por quê? Minha mente é livre e você tem inveja, pois vive preso a uma realidade apenas e diz que a minha mente que é limitada.
- Não é isso, você tem que aceitar que sua família está morta e que...
- Mortos para quem? Aquilo só foi um pesadelo, assim como esse.
- Leandro, vamos ter que fazer um tratamento que...
- Então faça logo, já não me importo... Essa conversa nunca existiu mesmo.
- Existiu sim Leandro, aceite a realidade.
- Aceito a realidade que prefiro, me leve de volta o Carlos está me esperando.

"Diálogo"

- Ei, gosto de ti
- Eu também gosto de ti
- Mentira, se tu gostasses de mim saberias que estás a magoar-me todas as vezes que sais com aquele gajo.
- Desculpe-me, mas aquele gajo é meu namorado, saio com ele sempre e ...
- Dissestes que gostas de mim, não me amas?
- Gosto, amar-te já seria demais.
- Mas sabes que sou assim, se falo que gosto é porque amo e se amo quero ter-te como minha namorada.
- Olhe aqui, sou livre, não amo pessoa alguma, apenas as tenho por perto, pois preciso delas. Deixe de ser idiota e passe a ser inteligente.
- Então não amas nem a teu namorado?
- Por que deveria amá-lo, ele atende a minhas necessidades, me acompanha e age comigo de forma a me fazer bem... isso já é o suficiente. Não desejo casar-me com ele, apenas o usarei enquanto me for agradável.
- Tu deverias envergonhar-te.
- Por que motivo?
- Ele te amava.
- Amava?
- Sim, mas agora ele não tem mais coração para isso... Inclusive tinha gosto de frango.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

"Barbeiro"

O barbeiro Antônio que morava perto da minha casa era conhecido em toda a cidade como o melhor barbeiro da região. Pessoas vinham de todas as cidades vizinhas só para prestigiar seu talento com a navalha. Ele teve uma esposa muito amável que deu a ele três filhas lindas. Infelizmente o barbeiro Antônio teve que criar sozinho suas filhas, já que sua esposa havia falecido por conta de uma inflamação cutânea mal tratada, que também vitimou um vizinho meses antes.
Extremamente religioso Antônio ia sempre à missa de domingo e fazia questão de levar suas filhas junto a ele. Era lá na igreja que o “Tonho”, como era conhecido pelos amigos mais próximos encontrava pessoas diferentes e fazia novas amizades. Coisa rara, já que  era muito fechado e procurava zelar por sua personalidade discreta. Estava quase sempre com o mesmo terno azul marinho, que sua esposa havia lhe dado de presente meses antes de morrer. Cuidava daquele terno como nada na vida, a não ser sua navalha, ferramenta de trabalho. Sempre que o traje se apresentava um pouco descorado ia ao armarinho comprar corante no mesmo tom e tratava de recolorir a peça.
Este presente que tanto cuidava e fazia questão de exibi-lo ao público foi comprado na loja de seu vizinho, o falecido. Sua esposa o havia encomendado e sempre que podia passava na loja para verificar se estava pronto, era muito perfeccionista. Foram cinco meses para a entrega do presente, que não se sabe de quê, já que não era nem aniversário do barbeiro ou qualquer outra data festiva quando foi entregue. Antônio dizia que se tratava da boa fé de sua amada, que tanto o amava a ponto de não haver motivos para presenteá-lo.
Não me lembro muito de sua esposa, eu era muito novo quando ela morreu, mas lembro que era muito religiosa. Apesar disso não freqüentava tanto a igreja quanto seu marido, mas estava sempre rezando. No seu velório as pessoas falavam muito, mas pouco me lembro dos motivos, sei apenas que Antônio não chorava. Ele devia estar conformado com sua fé, já que parecia estar rezando o tempo todo, falando baixinho.
Há cerca de um ano chegou a nossa cidade um circo, o fantástico circo imperial japonês. Foi uma febre, todos iam menos eu. Todas as tardes quando não tinha muito o que fazer e ia jogar conversa fora na barbearia, lá eu ficava sabendo do que acontecia no circo e matava minha curiosidade. Lá também fiquei sabendo do flerte que mudara a vida de Antônio para sempre, pois não era só o circo que viera a nossa cidade naquele tempo.
Lídia chegou na cidade não se sabe de onde, conheceu Antônio na saída da missa de domingo. Chovia muito e por isso o barbeiro lhe deu uma carona até o hotel onde se hospedara. No caminho sua filha menor, um ano mais nova que a do meio e dois que a mais velha, um anjo, a chamou para almoçar com a família. Naquela saia justa causada pela filha o pai não via outra situação se não reforçar o convite. Depois deste vieram outros poucos antes de assumirem o noivado e se casarem rapidamente. Quatro meses depois. Muito se falava sobre isso, mas na época não me preocupava tanto, preferia assuntos sobre bicicletas, dão muito menos trabalho que as mulheres e se nos derrubam as cicatrizes ficam legais para serem exibidas.
Pouco antes de casar, muita coisa já havia mudado na vida de Antônio. Sua barbearia evoluíra completamente, sua aparência seguiu o mesmo caminho. A agora “tony’s barbershop” era referência na região. Até o comércio próximo evoluiu seguindo a tendência e assim todos ganharam. Mesmo quando a concorrência não é pela clientela ela se faz pela atenção. Aquela rua se transformou, a cidade teve que acompanhar e até a administração pública teve que dar seus pulos para acompanhar o progresso.
Mas uma coisa não mudou, seu Antônio continuava usando a mesma navalha de sempre, quanto a isso Lídia não interferira, se preocupava mais em faturamentos e investimentos. Ela dava tanta atenção aos novos clientes que logo era mais popular que seu marido. Já havia até conseguido liberar as três meninas para namorar. E isso aconteceu rápido. Rápido também vieram os problemas, pois agora era muita gente para Antônio barbear. Trabalhava muito, tanto que domingo já não tinha mais ânimo de ir à igreja. Sua navalha começava a reclamar de tanto trabalho e passou a ferí-lo. sede.
Para ajudá-lo Lídia chamou para trabalhar na barbearia um jovem conhecido seu que morava na região, viera logo, mas não adiantou muito, não tinha talento. Antônio devia ensinar tudo a ele, que não saia de sua casa. Acabou mudando-se para lá, a casa ficava atrás da barbearia. Sua nova esposa o tratava como se fosse da família.
Aos domingos as meninas passaram a ir à lagoa da cidade, acompanhadas por seus namorados e sob supervisão de seu pai. Mas o velho Antônio já não agüentava o ritmo imposto por suas filhas e deixou-as sob os cuidados da madrasta. E isso é tudo o que eu fiquei sabendo pela filha mais nova, um primor de garota. Ela disse que o jovem ajudante do pai passou a freqüentar a lagoa aos domingos com a família.
Um dia fui ao “tony’s barber shop”, minha barbicha precisava de reparos, mas não me sentia muito confortável. Seu Antônio não estava com a mesma energia de antes. Tentei puxar assunto várias vezes, mas ele não dava seqüência às minhas frases. Então ele me propôs que eu acompanhasse sua filha mais nova, uma princesa, em uma viagem. Fiquei surpreso, não havia precedente para aquilo e também não entendia o motivo, já que ela tinha um namorado, mais velho, bem mais velho, e além de tudo aparentemente bem de vida, um ótimo partido. Já eu, pobre, magro, ciclista, e feio não tinha predicados consideráveis para aceitar aquela proposta. Mas aceitei. É claro se fosse de acordo com o desejo da filha dele, um desejo.
A encontrei no local, data e hora marcada por Tonho. Ela chorava muito, eu não entendia nada, fui fazer a barbicha e ganhei uma viajem de fim de semana com acompanhante, chorosa, mas era linda assim mesmo. No ônibus me perguntou se eu aceitaria ir com ela para onde fosse para fazer o que quer que fosse. O papo ficou bom. Disse que sim, então ela pediu para descer do ônibus e voltou para casa. E eu atrás. Já era noite. As luzes apagadas. Pediu para que eu não fizesse barulho e me deixou esperando na sala escura. Disse que não queria acordar a família. Eu aceitei.
Sentei-me no sofá. Não via muita coisa a minha frente ou em qualquer direção, apenas brilhos na penumbra. Pouco tempo depois  ouvi passos, falas confusas, gritos sufocados e silêncio. Pensei em ir atrás dos sons, saber o que estava acontecendo, hesitei por algum tempo. Comecei a sentir um frio estranho, meus olhos já se acostumavam com a escuridão, mas mesmo assim não via nada. Tive medo do que podia estar acontecendo e resolvi fazer algo. Agachei-me e pequei um objeto que estava sobre a mesinha da sala. Não segui meus instintos. Queria ter saído daquela casa, mas algo me levava cada vez mais para dentro, parecia que um campo magnético me sugava. Fui tateando as paredes. Abri uma porta pesada de madeira, devia ser bonita, pois senti seus detalhes bem esculpidos. Sobre a cama do casal havia dois corpos nus. Ainda se sentia o cheiro sensual de depravação libidinosa, mas aquele silêncio e frieza gerada pela paralisia dos cadáveres expunham-me a um enjôo eminente. A navalha matara sua sede. Ou não. O quarto ao lado estava vazio, todos estavam reunidos no quarto da filha do meio último do corredor. O pai e as três filhas.
O choro era silencioso convergia à escuridão do lugar. Um pai desgraçado, destroçado e sujo de sangue. Suas filhas se encaravam como em uma despedia. Seu pai, que ignorava minha presença, assim como as outras, confessara sua vingança. Agora a navalha, que se somava a seu braço como a caneta à imaginação do poeta, beberia seu próprio sangue, suas filhas. Primeiro a mais velha, essa era alta, e por isso difícil segurá-la enquanto se debatia como os frangos que via ainda criança ao perderem suas cabeças, mas nesse caso ela seria sacrificada e eu não sabia o porquê. Esvaindo-se em sangue foi sufocada e aos poucos perdendo a força. A do meio ainda estava nua, participou ativa e passivamente da orgia de sua madrasta, essa era mesmo filha de sua mãe, disse o pai antes de atingir sua jugular com sua ferramenta e companheira. Essa chorava, mas não se debateu tanto. Não sei se estava bem amarrada ou o ódio de seu pai a vitimou num instante. Então nesse momento falou com sua filha mais nova, sua flor de lótus. Disse a ela que era pai apenas de uma linda fada. Eu assistia a tudo aquilo com sentimento, mas o frio que sentia me deixava como uma pedra, não entendia nada. Era como se fosse um filme, cinema alemão, mas menos real.
Ela sabia de toda a verdade. Ele levantou a navalha. Ela viu sua mãe morrer. Ele estava ajoelhado a sua frente. Ela o odiava por ser órfã. Ele chorava, mas estava decidido. Ela teceu aquela tragédia. Ele entendia tudo agora. Ela o olhava com desprezo. Ele deu de beber à navalha com seu sangue a última vez. Ela olhou para mim.
Seu pai era alfaiate, ela sabia de toda a história. Desde criança sabia que os fatos a ela apresentados não eram os mesmos que testemunhara em segredo. Com um pouco de influência muda-se o curso da verdade assim como se fosse um rio. Tramou em segredo toda aquela situação, jovem prodígio na arte de tramar. Conhecia seus personagens como peças de xadrez. Jogava com eles visando sua vingança.
Agora eu conhecia a verdade, queria fugir, seu olhar era frio, suas mãos lentas. Apanhou a navalha com lentidão, aproveitava-se de cada segundo. Degustava-os como uma taça de vinho. Sentia um frio no estomago, como se estivesse apaixonado e diante de mim minha musa platônica. E estava. Ela me beijou. Aceitei o destino imposto naquele presente momento. Estava paralisado. Deu de beber à navalha uma vez mais.
30-03-2010

domingo, 2 de janeiro de 2011

Convite para uma viagem muito louca

Olá,
Estou a convidar amigos ciclistas ou não para uma viagem muito louca no carnaval. Para aqueles que não querem ficar ouvindo aquelas mesmas músicas, vendo sempre as mesmas coisas na tevê e preferem curtir algo mais saudável, tendo contato com a natureza, ofereço uma carona em um sonho que nutro desde a primeira vez que fui a São Jorge, Alto Paraíso - GO. Espero iniciar com meus colegas de equipe e outros que pedalam comigo no dia 05 de março, sábado, às 06:00 o caminho para São Jorge de bike. Serão quase 200 km de ida, aproximadamente 8 horas de pedalas e um visual recompensador. Para aqueles que são menos interessados em sofrimento convido para que embarquem na nossa viagem com seus carros, motos, cavalos ou qualquer meio de transporte que tenham a disposição. Se possível gostaria que acompanhassem o pelotão parando em pontos estratégicos, para nos fornecer água e outras bebidas necessárias. Estou programando a volta para o dia 08 de março, terça-feira. espero o apoio de vocês. Por favor comentem ou mandem e-mails. ;)

Obrigado!